The Helba Song

Aqui estou nesta ilha
longe de quem me ama
e perto de quem me quis

Desde o começo sempre estive só
não há novidade para mim aqui
Não há utero que consiga parir novamente o que senti um dia

Todos os sentimentos morreram em nome da verdade

O animal está domesticado novamente
até que a noite caia mais uma vez,
e a besta se erga para trazer um novo deleite
e com ela uma nova queda

Meus navios seguirão por mares tempestuosos
perfurarão mil ondas como colossos se erguendo na madrugada
meus homens perecerão em meu nome,
e eu marcharei novamente sobre sob a mesma terra que pisei um dia,
pois ainda sou quem dá nome às coisas,
e delas nada temo

Eu
estou no branco
com a coroa por vir

Eu
Nada temo

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Caminhar

Não quero saber quem sou

Só preciso caminhar,
caminhar, caminhar e caminhar

Irei de cidade em cidade
Em um andar sem pensar
sem falar ou me comunicar

Quero caminhar

Caminhar em quanto a consciência não volta

Sem rumo eu quero caminhar

Vou aonde algo me faz ir
um lugar que é aqui e ao mesmo tempo se faz longe de mim
um lugar onde a fé cria expectativa
de ser o repouso ou união

E se um dia eu lá chegar
ou antes minha consciência voltar

Saberei mais uma vez
que de nada adianta perguntar
pois as perguntas são pedras nas águas que correm

Perguntas não levam a nada,
é só medo,
medo de saber ser
um pote sem fundo

concerto para pianos tortos

são dois corpos nus, lado a lado, pressionando as teclas de um piano. uma cena idealizada para quem a vê de fora, um mundo concreto para quem o vê de dentro. dessas cenas sem um porquê de acontecer, afinal, são só um casal juntos por mais um entardecer ao lado de um piano, como tantos outros já o foram. ele se levanta e escolhe notas ao acaso, enquanto ela entende o ato como um desafio e se posta ao seu lado. nenhum dos dois hesita qualquer pudor. você sabe tocar? não, ela responde com uma vergonha disfarçada. ele encontra dois acordes que soaram agradáveis aos seus ouvidos e percebe um olhar curioso. monta uma valsinha qualquer, os repete e fala docemente: é só fazer o que quiser com as teclas brancas. ela sorri e começa a tatear cegamente pelas teclas de marfim. seguem tocando a valsa torta para ninguém além dos dois.

risos se mesclam ao ambiente.

brincam de achar padrões, de se descobrirem em timbres. mas, a medida que se conhecem musicalmente, uma aflição os contamina: qual será a próxima nota? ela rapidamente se entedia em seguir regras que desconhece - por que somente as teclas brancas se temos todas as outras? por que tamanha limitação? - e começa uma aventura perigosa pelo mundo negro dos sustenidos e bemóis. claramente aquelas andanças bicolores não soam atraentes ao mundo externo, mas, lembrem-se, aqui falamos do mundo concreto dos dois, do qual eu e você não entendemos nada de sua beleza.

respirações se mesclam ao ambiente.

ele entende cada dó sustenido fora do tempo como um convite para definir uma estrutura musical. sente-se importante, monta uma estratégia em sua cabeça e torce para que ela perceba os toques propositais do seu corpo no dela. os cotovelos e ombros sendo sempre a guiada delicada de sua mão direita, enquanto a cadência do tocar dos pés e das coxas são definidos pelo ritmo de sua mão esquerda. se embaralha com toda a coordenação motora exigida e erra por algumas vezes o tempo, mas sua parceira não percebe.

arquejos se mesclam ao ambiente.

ela percebe o mundo o suficiente para compreender os toques e desejar as mãos que os produzem. continua desobediente e, agressivamente, lança sua mão esquerda para começar compor as canções do corpo. a sua direita permanecia no piano reproduzindo um padrão de sol, lá e dó que havia encontrado a pouco. com a outra, acaricia as harpas dos cabelos dele ao mesmo tempo que as notas. eles se transformam em som. dois pares de olhos fechados em um diálogo lascivo composto de notas musicais. o volume se instaura em uma crescente, o grave se torna forte como o esperado e o agudo ganha a agilidade nos mesmos sol, lá e dó. a música sobrevive até seu último suspiro e num contratempo qualquer ela é interrompida por um prensar de várias teclas. o piano grita desafinadamente para que fiquem e silencia. uma última súplica dele, que havia ganhado afeição por aqueles dois corpos nus.

nesta tarde, aquele piano descobriu melodias que nunca pôde compor e permaneceu aberto como se as admirasse ao som ambiente.

A marcha de lilith

Meus filhos são os abortos que nasceram dos homens
pois meu ventre não é mangedoura nem berço para crianças
eu quero que todos saibam e me possuam
pois ninguém é dono de mim
eu sou a filha da dispersão e a mãe da angústia
a todos dou minha beleza mas a nenhum dou meu amor
e quero ser assim por todos os aeons que virem
serei eu abusada por todos os homens por todos meus orificios
pois eu sou hoje aquilo que não terás amanhã,
a bela jovem senhora do desespero
aquela que traz a paz para depois tirar
o engano no caminho daquele que busca seu pai no meio da noite
eu sou quem anuncia a coruja e o reencontro com o sol

La Catrina

eu não gosto mais de voce
eu gosto de um fantasma
que suga minha alma todos os dias
que me faz fumar mais do que o normal
que me faz beber e passar mal
que me faz buscar deus mais uma vez

eu não gosto mais de voce
e ao mesmo tempo te quero
sabendo que não é mais quem eu penso,
é alguem que eu conheci um dia
é alguem que eu conheci a noite em uma praia vazia
é alguem que eu conheci e agora é memória

Não mais nesta encarnação
nos veremos novamente
nos mesmos gestos
nos mesmos cafés,
nos mesmos lugares onde passamos
ao mesmo tempo eles estão empregnados pela sua imagem
maldito fantasma que eu amo